Mário de Andrade

No ano de 1922 – exatamente naquele em que aconteceu o maior evento que revolucionou a arte de uma forma geral (Semana de Arte Moderna) – comemorava-se o centenário da Independência Brasileira. E por que não dizer independência também no jeito de fazer literatura? Sim, nessa época já ecoavam os gritos de liberdade por uma arte autenticamente nacionalista – dadas as influências das correntes vanguardistas. Eis que surge assim um grupo de intelectuais responsáveis por colocar todos esses anseios em prática. Entre eles, ninguém menos que Mário de Andrade.

Esse grande mestre – poeta e prosador–, Mário Raul de Morais Andrade, nasceu em 1893, em São Paulo. Após ter concluído os estudos primários no Grupo Escolar da Alameda do Triunfo, formou-se em 1909 no primeiro grau como bacharel em Ciências e Letras, no Ginásio Nossa Senhora do Carmo dos Irmãos Maristas. No ano seguinte (1910) começou a frequentar a Escola de Comércio Álvares Penteado, onde iniciou o curso de Filosofia e Letras. Contudo, em decorrência de uma briga com um dos professores, tal intento teve que ser interrompido.

Em 1911, no afã de estudar piano, matriculou-se no Conservatório Musical de São Paulo e, após ter concluído o curso, em 1917, tornou-se professor de História da Música. Nesse mesmo ano publicou uma obra que demarca sua carreira literária, Há uma gota de sangue em cada poema, sob o pseudônimo de Mário Sobral.  Paulicéia Desvairada foi publicada em 1922 – ano da Semana da Arte Moderna –, obra considerada autenticamente modernista. Com a participação nesse evento o nome de Mário ganhou projeção nacional, razão pela qual se tornou dirigente do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, compreendendo o período de 1934 a 1937.

Em 1924, juntamente com amigos, também modernistas, empreendeu aquela que seria sua primeira viagem rumo “às descobertas do Brasil”, cujo destino foi Minas Gerais, onde visitou cidades históricas. Tornou-se um estudioso do folclore brasileiro e um pesquisador das artes literária e musical.

Realizou também uma viagem etnográfica na companhia de Tarsila do Amaral e de dona Olívia Guedes Penteado, percorrendo todo o Brasil, indo do Amazonas ao Peru – fato que resultou na escrita do livro/diário O turista aprendiz. Após esse vasto empreendimento cultural, faleceu em 1945, na mesma cidade em que nasceu, São Paulo.

Como dito, antes mesmo de 1922, havia estreado como poeta, ao publicar seu primeiro livro Há uma gota de sangue em cada poema. Mesmo não alcançando a notoriedade merecida, Mário fez da palavra seu objeto de desejo, utilizada como instrumento de defesa da paz e da justiça, fazendo alusão aos horrores promulgados pela Primeira Guerra Mundial. Daí segue os frutos colhidos por sua habilidade artística ao publicar Paulicéia Desvairada, escrita entre os anos de 1920 e 1921. Estava inaugurada, assim, a vertente modernista, uma vez que nela são nítidas as influências vanguardistas, tais como a escrita automática (futurismo), bem como traços surrealistas e o emprego de versos livres, de uma linguagem solta e “desvairada”, isenta de quaisquer associações. Vejamos, pois, alguns fragmentos inerentes a Inspiração:

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Inspiração

São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Fazendo parte dessa mesma obra, destacamos Ode ao burguês, declamado em uma das noites da Semana de Arte Moderna.  Retratando também um bom exemplo das ideias vanguardistas, nele é impresso todo o rancor contra a superficialidade do poeta em relação ao conservadorismo da burguesia. Atentemo-nos a alguns fragmentos:

[...]

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!

_ Más nós morremos de fome!   

[...]

Outra de suas produções – Losango Cáqui – traz no título a figura emblemática do losango, implícita também no arlequim, no qual várias dessa figuras se juntam. Tal intuito está relacionado à visão de que a cultura brasileira se assemelhava a essa figura carnavalesca, que era constituída de distintas influências estrangeiras, como uma colcha de retalhos. Clã do jabuti eRemate dos males são frutos do gosto do autor em pesquisar as raízes brasileiras, levando em consideração o folclore e os costumes regionais. Aspectos esses que se fizeram presentes em uma das atividades prosaicas desse nobre escritor, intitulada Macunaíma. Considerada como um romance, Mário a definiu como sendo uma rapsódia, termo que na música serve para classificar peças compostas por meio de improvisações, sob forte inspiração de cantos populares e tradicionais. Valemo-nos então das próprias palavras do autor, nas quais ele ressalta:

Um poema herói-cômico, caçoando do ser psicológico brasileiro, fixado numa figura de lenda, à maneira mística dos poemas tradicionais. O real e o fantástico fundidos num plano. O símbolo, a sátira e a fantasia livre fundidos. Ausência de regionalismo pela fusão das características regionais. Um Brasil só e um herói só.

Outra obra de cunho prosaico é Amar, verbo intransitivo, demarcada por influências marxistas e freudianas, associada a uma contundente crítica social. Já na capa, considerada como idílio, a obra narra um delicado e suave caso de amor.

Mário de Andrade foi um dos integrantes do grupo de intelectuais modernistas que participaram da Semana de Arte Moderna

Mário de Andrade foi um dos integrantes do grupo de intelectuais modernistas que participaram da Semana de Arte Moderna

Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

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