Cora Coralina

Cora Coralina (ou Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas) nasceu em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás. Escritora desde os 14 anos de idade, só publicou seu primeiro livro — Poemas dos becos de Goiás e estórias mais — em 1965. Ainda, o sucesso nacional aconteceu apenas 15 anos depois.

A poetisa, que faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia, é autora de obras marcadas pela simplicidade, regionalismo, versos livres e caráter memorialístico. Além disso, ela dá visibilidade, em sua poesia, predominantemente narrativa, a mulheres socialmente marginalizadas, como lavadeiras e prostitutas.

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Biografia de Cora Coralina

Cora Coralina, na foto de capa do livro “Cora Coralina: raízes de Aninha”, publicado pela editora Ideias & Letras.[1]
Cora Coralina, na foto de capa do livro “Cora Coralina: raízes de Aninha”, publicado pela editora Ideias & Letras.[1]

Cora Coralina (ou Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas) nasceu em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás. Ali, frequentou a escola durante apenas três anos e tinha muita dificuldade em aprender. De acordo com a escritora, em uma entrevista concedida a Miriam Botassi (1947-2000), quando chegou à idade de se casar, teve “muito medo de ficar moça velha sem casar”.

Já que tinha ideias não aceitas em seu tempo, a família a chamava de doida, por ser diferente. Era considerada feia e, por isso, tinha medo de ficar solteirona. Então, se apegou a Santo Antônio e logo se casou com um paulista, em 1910. Após o casamento, a poetisa se mudou para São Paulo, onde viveu entre 1911 e 1956, e teve filhos e netos. Nesse estado, morou na capital e, também, nas cidades de Jaboticabal, Andradina e Penápolis.

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Contudo, segundo Cora Coralina, a realidade do casamento foi diferente do que tinha sonhado. Ela sonhava com um príncipe encantado, mas acabou se casando com um homem muito ciumento e que era 22 anos mais velho do que ela. Quando ficou viúva, em 1934, a escritora enfrentou dificuldades financeiras. Para terminar de criar os filhos, trabalhou como vendedora de livros, que ela vendia de porta em porta.

Segundo a poetisa, ela foi dona de sítio, criou porcos, teve vacas de leite, lavouras, paiol de milho, “tuia” cheia de arroz, vendeu algodão e feijão. Mais tarde, voltou para Goiás, onde vivia sozinha, pois os filhos moravam todos em São Paulo. Ela gostava dessa solidão, gostava de viver livre. Ali, exerceu, também, o ofício de doceira.

A autora escrevia desde os 14 anos de idade, mas somente em 1965 publicou seu primeiro livroPoemas dos becos de Goiás e estórias mais. Era conhecida em sua região e desconhecida no restante do país. No entanto, em 1980, o escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu um artigo sobre ela.

A partir de então, Cora Coralina, antes de falecer em 10 de abril de 1985, em Goiânia, passou a ser reverenciada pelo público leitor e pela crítica especializada, além de receber as seguintes homenagens:

  • Troféu Jaburu (1980)

  • Troféu Juca Pato (1983)

  • Título de doutora honoris causa (1983), pela Universidade Federal de Goiás (UFG)

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Características da literatura de Cora Coralina

  • Linguagem coloquial

  • Simplicidade na escrita

  • Poesia de viés narrativo

  • Caráter autobiográfico e memorialístico

  • Personagens femininas e marginalizadas

  • Valorização dos costumes regionais

  • Fatos do cotidiano de pessoas simples

  • Uso de versos livres

Obras de Cora Coralina

Capa do livro “Meu livro de cordel”, de Cora Coralina, publicado pela Global Editora.[2]
Capa do livro “Meu livro de cordel”, de Cora Coralina, publicado pela Global Editora.[2]
  • Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965)

  • Meu livro de cordel (1976)

  • Vintém de cobre: meias confissões de Aninha (1983)

  • Estórias da casa velha da ponte (1985)

  • Os meninos verdes (1986)

  • Tesouro da casa velha (1996)

  • A moeda de ouro que um pato engoliu (1997)

  • Vila Boa de Goiás (2001)

Poemas de Cora Coralina

O poema “Mulher da vida” faz parte do livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Nele, o eu lírico homenageia a mulher prostituta, de forma a mostrar que ela não é inferior a nenhuma outra mulher:

Mulher
da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da Vida, minha Irmã.

Na sequência, a voz poética diz que as mulheres da vida são “pisadas, espezinhadas, ameaçadas” e “Desprotegidas e exploradas”. Elas são ignoradas pela Justiça, porém, segundo o eu lírico, são indestrutíveis e sobreviventes, e também:

Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

O eu lírico as compara a uma “flor sombria” surgida da miséria, da pobreza e do abandono. Então, começa uma narrativa sobre uma mulher que era perseguida “pelos homens que a tinham maculado”. Até que ela se encontra com a personificação da Justiça, que diz: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Assim, podemos concluir que a mulher é Maria Madalena, e a Justiça, Jesus Cristo.
A voz poética, novamente, menciona a falta de proteção legal da mulher prostituta e as humilhações que ela sofre. Termina o poema, dizendo:

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
[...]

Já no poema “Menina mal amada”, do livro Vintém de cobre: meias confissões de Aninha, o aspecto narrativo se sobressai. Temos, então, a narradora, que se confunde com a autora, já que o poema é de caráter autobiográfico. Assim, ela começa o texto dizendo que, no passado:

Tanta coisa me faltou.
Tanta coisa desejei sem alcançar.
Hoje, nada me falta,
me faltando sempre o que não tive.

Na sequência, diz que foi uma “pobre menina mal amada”, pois a mãe desejava ter um “filho homem”. Aninha, a narradora, não teve carinho de mãe, mas de sua bisavó e de uma tia. A bisavó era a pessoa que a educava. No seu isolamento, a menina se entregava à imaginação, mas a família temia que fosse loucura:

Certo foi que eu engenhava coisas, inventava convivência com cigarras,
descia na casa das formigas, brincava de roda com elas,
cantava “Senhora D. Sancha”, trocava anelzinho.
Eu contava essas coisas lá dentro, ninguém compreendia.
Chamavam, mãe: vem ver Aninha...
Mãe vinha, ralhava forte.
Não queria que eu fosse para o quintal, passava a chave no portão.
Tinha medo, fosse um ramo de loucura, sendo eu filha de velho doente.
Era nesse tempo, amarela, de olhos empapuçados, lábios descorados.

Aninha tinha “boqueira”, além de “uma esfoliação entre os dedos das mãos”, o “cieiro”, e, por isso, suas irmãs não brincavam com a menina nem deixavam ninguém brincar:

Aparecia na casa menina de fora, minha irmã mais velha passava o braço
no ombro e segredava: “Não brinca com Aninha não. Ela tem cieiro
e pega na gente”.
Eu ia atrás, batida, enxotada.
Infância... Daí meu repúdio invencível à palavra saudade, infância...
Infância... Hoje, será.

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Frases de Cora Coralina

A seguir, vamos ler algumas frases de Cora Coralina, extraídas de seus poemas “Não conte pra ninguém”, “Meu melhor livro de leitura”, “Lucros e perdas” e “A gleba me transfigura”:

  • “Eu sou a velha mais bonita de Goiás.”

  • “Fui velha quando era moça.”

  • “Tenho a idade de meus versos.”

  • “Lancei a rede na Lua, ando catando as estrelas.”

  • “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.”

  • “Eu nasci num tempo antigo, muito velho, muito velhinho, velhíssimo.”

  • “Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando, é o arado milenário que sulca.”

  • “Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e o peso do machado.”

  • “Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e fecundada no ventre escuro da terra.”

Créditos das imagens

[1] Editora Ideias e Letras (reprodução)

[2] Grupo Editorial Global (reprodução)

Por: Warley Souza

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