Cinco melhores poemas de Florbela Espanca

Os poemas de Florbela Espanca apresentam críticas ao período de repressão sexista da época e presenteiam-nos com encantos em forma de verso.

Florbela Espanca, nascida em 8 de dezembro de 1884, em Vila Viçosa, Portugal, foi uma poeta que não deu ouvidos à sociedade machista. Muito pelo contrário, ela foi uma mulher que deu voz a muitas mulheres, que, sufocadas por preconceitos sexistas, não conseguiram, por exemplo, concluir a escola primária. Florbela, que estava muito à frente de seu tempo, aos 11 anos, foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário do Liceu de Évora, cidade escolhida pelos pais para facilitar os estudos da filha.

A fama de transgressora, por ter desafiado barreiras impostas por uma sociedade machista, fez da escritora uma das autoras que são consideradas feministas atualmente. Por mais que não levantasse, na época, bandeira do movimento, ela fazia questão de não deixar que as amarras de um cenário de maioria do gênero masculino lhe calassem.

O tom de seus poemas era moderno, visto que falavam sobre os conteúdos caóticos da conjuntura histórica em que viveu, mas as formas escolhidas eram tradicionais, uma vez que os modelos de sonetos clássicos eram característica da escritora, influenciada pelos cânones estéticos do Neorromantismo.

Assim como Fernando Pessoa, Florbela foi reconhecida por sua inteligência e talento, mas, para ela, isso não foi motivo apenas para potencializar sua capacidade criativa. Infelizmente, a instabilidade emocional da escritora conduziu-a a várias tentativas de suicídio em razão de uma grave neurose que a colocava em um estado de angústia exacerbada.

Por isso, morreu cedo, ao completar 36 anos. No dia de seu aniversário, em 8 de dezembro de 1930, Espanca tomou sedativos e colocou fim à sua jornada. Entretanto, graças à sua genialidade, sua poesia continua viva e inspira muitos e muitas por aqui.

Confira os cinco melhores poemas de Florbela Espanca e entenda o porquê de tantos elogios.

Eu …

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além …
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

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Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca, mesmo quando estava no curso de Direito, na faculdade de Lisboa, não deixou de publicar seus poemas *
Florbela Espanca, mesmo quando estava no curso de Direito, na faculdade de Lisboa, não deixou de publicar seus poemas *

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Ambiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar…

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? – Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

O meu impossível

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

* Capa do livro Obras Completas de Florbela Espanca, volume 4, Lisboa: Dom Quixote, 1985.

A abordagem crítica da obra poética feminina de Florbela Espanca é destaque na literatura portuguesa

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Por: Mariana do Carmo Pacheco

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