As três fases do Romantismo brasileiro

O romantismo brasileiro atravessou três gerações com distintas características e manifestações.

Em se tratando das influências atribuídas ao contexto social, podemos dizer que o Romantismo brasileiro floresceu em meio ao sentimento vivido pela nação no período pós-independência. Com isso, veio à tona o desejo de tal libertação também no mundo das artes em geral. Na literatura, em especial, era evidente a necessidade de implantá-la como sendo genuinamente brasileira, valorizando principalmente suas tradições e as belezas que daqui faziam parte. 

O propósito da construção de uma identidade nacional, em termos culturais, fez com que o nacionalismo, antes difundido também na Europa, norteasse de forma veemente a temática relativa ao período em questão, valorizando, sobretudo, o exotismo da paisagem e dos habitantes primitivos e o aspecto singular de nosso processo histórico, inclusive com grande destaque à formação dos núcleos urbanos. Quando falamos acerca do nacionalismo, torna-se fundamental ressaltarmos que a figura do índio, ora tido como herói nacional, representou as bases da poesia relativa à primeira fase romântica.

Assim sendo, tendo em vista que os representantes deste período manifestaram suas criações, tanto no aspecto prosaico quanto no poético, analisaremos agora algumas características das quais se constitui a poesia, uma vez que esta se subdivide em três fases: primeira, segunda e terceira gerações. Vejamo-las, portanto:


Primeira geração

Cita-se como marco introdutório do Romantismo, a obra “Suspiros poéticos e saudades”, de Gonçalves de Magalhães, publicada em 1836. Contudo, foi Gonçalves Dias o consolidador da fase em questão. Fase esta conhecida como geração nacionalista ou indianista, visto que além de priorizar a figura do índio, concebido como representante da nacionalidade brasileira, procurou exaltar também a natureza, o sentimentalismo e a religiosidade. Assim, sua obra compreende a lírica sentimental e a lírica de inspiração nacionalista. Podemos citar “Primeiros cantos”, representando a lírica indianista, na qual o índio vive em perfeita comunhão com a natureza que, de acordo com as ideias de Rousseau, é elemento fundamental para a construção de sua personalidade. Outros poemas, também de sua autoria, ressoam traços do gênero épico, como é o caso de “I – Juca Pirama” e “Os Timbiras”. No que se refere à linguagem, dizemos que esta revela a habilidade do artista em lidar com vários ritmos, versos e formas de composição distintas. Elementos estes tão bem representados (apenas em alguns fragmentos) no poema a seguir:

Canção do Tamoio
(Natalícia)

I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
[...]


Quanto à lírica sentimental, comumente Gonçalves Dias retrata temas relacionados ao amor, saudade, natureza, religiosidade, revelados sob uma aguçada sensibilidade – característica determinante do artista.


Se se morre de amor!

Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!


Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
[...]


Segunda geração

Sucedendo o período de afirmação do Romantismo brasileiro (compreendido entre os anos de 1830 – 1840), a poesia passa a tomar novos rumos com o surgimento de uma nova tendência – denominada de ultrarromântica. Esta, por sua vez, foi demarcada por um intenso subjetivismo, o qual se transformou em egocentrismo, tendo como consequência um sentimento demarcado por um extremo pessimismo e melancolia. Tal aspecto resultava tão somente num desejo de fuga da realidade, obtendo muitas vezes a morte como forma de revelar este escapismo. 

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Tamanha morbidez é resultante de Satã (caracterizado como o demônio) – símbolo revelador dos valores cultivados pelos ultrarromânticos – manifestados pela loucura, pelo desejo de se entregar à bebida, às drogas, ao tédio e, sobretudo à doença – revelada pela tísica, na época conhecida como tuberculose, chegando a matar muitas pessoas. Por esta razão, a fase em voga é também conhecida como o mal do século.
Familiarizados com tais características, atemo-nos aos dizeres daquele que foi um dos principais representantes – Álvares de Azevedo:


Pálida Inocência

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!

Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t'embalasse
Desmaiada no sentir!
[...]

Ao analisá-los, percebemos que a figura da mulher (traço marcante da era em questão), é concebida como algo inatingível: por mais que o poeta a deseje, jamais terá condições de concretizar este intento, haja vista que, para ele, ela representa uma figura divinal.


Terceira geração

As manifestações artísticas que integraram esta fase são de cunho social e político, funcionando como uma espécie de denúncia das mazelas da própria sociedade então vigente. À luz dos acontecimentos, Castro Alves foi quem mais se destacou, uma vez influenciado pelas ideias do escritor Victor Hugo. Os autores não procuravam mais fugir da realidade, mas sim enfrentá-la e modificá-la. A poesia dessa época é também conhecida como condoreira, fazendo alusão ao condor, uma ave com capacidade de alcançar grandes voos – expressando a liberdade, entendida sob todos os aspectos. Vejamos, pois, o que tem a nos dizer Castro Alves em uma de suas criações:

Navio Negreiro

[...]

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

[...]

Ao nos atermos aos versos: A vontade por poder... Hoje... cúm'lo de maldade, Nem são livres p'ra morrer. . Prende-os a mesma corrente, percebemos que o poeta expressa de forma singular sua indignação mediante a realidade social, sobretudo, ao se referir à escravidão negra no Brasil.

 


Aproveite para conferir as nossas videoaulas relacionadas ao assunto:

Casimiro de Abreu e Álvares de Azevedo - representantes da 2ª geração romântica

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Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

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