Gonçalves Dias

Gonçalves Dias foi “o nacionalista por excelência”. Se o clima de independência não se materializou politicamente dizendo, ao menos no campo das artes ele se fez notadamente expresso. Partindo desse princípio, é preciso conhecer o contexto histórico para compreender as principais características que demarcaram a era romântica. Assim, “lá fora” ocorriam dois importantes fatos históricos: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa.   

A última delas, por exemplo, propulsora de tantas transformações, sobretudo quanto a novos ideários, fez surgir o lema Igualdade – Liberdade – Fraternidade, dando vida a uma nova corrente (o socialismo), cujos objetivos se pautavam na implantação de uma sociedade mais justa e mais igualitária – pretensões frustradas.
Dessa forma, ascendia a sociedade a qual se manifestava dia a dia mais rica e influente – a classe burguesa. E, como oposição a esses fatos pregados pela realidade vigente, surgiu outra classe, a dos artistas que se fizeram vistos por meio da expressão e do trabalho com a linguagem. Foi assim que entrava em cena uma literatura autenticamente nacionalista, tendo também como autêntico um de seus representantes – Gonçalves Dias. 

É sempre bom compreender que esse nacionalismo é proveniente da volta às raízes, da volta ao passado, cujo resultado foi tão somente a valorização da cultura, da natureza, das tradições, e inclusive a valorização de quem vivia na natureza – os nativos indígenas. Tem-se, assim, o índio como figura emblemática, representando, em outras palavras, a “cara” do Brasil daquela época.

Claramente influenciado pelas ideias de Rousseau, o poeta em questão mantinha acesa a ideia de que a figura indígena era subliminar, por isso o tinha como a figura do herói medieval, cuja característica principal era a pureza do caráter, visto que por se encontrar ainda no seu habitat natural não havia sido corrompido pelos moldes da sociedade. Sob esse instinto, cultuou uma de suas principais vertentes – a poesia indianista.  Nela podemos atestar verdadeiros traços épicos, evidenciados em I-Juca Pirama e Os Timbiras. Tal aspecto se deve ao fato de que mesmo o artista fazendo referência a um índio em particular, suas intenções eram se referir a uma coletividade, dada a concepção voltada para o heroísmo e a pureza da alma. Em toda a criação lírica indianista, Gonçalves Dias se mostrou como alguém que soube magnificamente lapidar o trabalho com as palavras, mostrando-se um tanto quanto disciplinado (sem muitos exageros) ao construir formas de composição bem elaboradas – herança, talvez, de influências classicizantes, fato perfeitamente constatável numa de suas criações Canção do Tamoio:

I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
[...]

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A outra vertente, não menos sentimental que a primeira, classificou-se como a lírico-amorosa, na qual a habilidade desse nobre poeta se voltou para o culto a temas filosóficos, tais como o enfrentamento dos obstáculos da realidade circundante, o pessimismo frente a tais obstáculos, os desencontros e as impossibilidades amorosas, entre outros – frutos de uma paixão não concretizada com a jovem Ana Amélia. Tal sentimento deu origem a muitos de seus poemas, tais como este expresso a seguir:

 

Ainda Uma Vez, adeus
                      I
Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
                      II
Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!
                      III
Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esperança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
[...]

Estando a par do perfil que tanto norteou as produções desse ímpar representante de nossas letras, conheça agora seus traços biográficos:

Antônio Gonçalves Dias nasceu em 1823, em Caxias, no Maranhão. Filho de um comerciante português branco e de uma cafuza, desde cedo se mostrou interessado pela leitura, seguindo para Coimbra, em 1838, onde estudou Latim e Letras Clássicas. Já com 20 anos retornou ao Brasil, trazendo consigo boa parte de suas produções. Assim, ingressou muito facilmente no meio artístico e cultural, exercendo por dezesseis anos uma intensa carreira de professor, crítico literário, funcionário público e colaborador de vários jornais. 

Quando tinha 23 anos se apaixonou por Ana Amélia do Vale, contudo, como já elucidado, este não passou de um amor não correspondido, dada a imposição dos pais dela pelo fato de ele ser mestiço. Em virtude disso, acabou se casando com D. Olímpia Coriolana da Costa, pouco antes de falecer. Já com a saúde debilitada, retornou a Portugal e, na volta ao Brasil, em 1864, o navio (Ville Boulogne) no qual viajava naufragou. Nesse naufrágio, parte do poema épico Os Timbiras se perdeu.

Destacam-se, portanto, como obras de sua autoria, sobretudo no estilo lírico, Primeiros cantos (1846); Segundos cantos (1848); Sextilhas de frei Antão (1848); Últimos cantos (1850); Os Timbiras (1857-edição incompleta).  

No teatro: Patkull (1843); Beatriz Cenci (1843); Leonor de Mendonça (1847).

Outros: Dicionário da língua tupi (1858).

Gonçalves Dias se destacou como um representante ímpar da primeira fase do Romantismo brasileiro

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Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

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