Independência da América Espanhola

   A independência da América Espanhola foi o movimento que garantiu a liberdade política das colônias espanholas na América Latina. Esse movimento não se restringiu apenas a acontecimentos no interior das colônias. Movimentos ocorridos na Europa e nos Estados Unidos, aliados à insatisfação da elite colonial espanhola, contribuíram para que a América dominada pela Espanha conquistasse sua independência.

A independência norte-americana, Napoleão Bonaparte e os ideais iluministas colocaram em xeque o domínio absolutista na América. A elite colonial, os criollos, tentaram se desligar de qualquer laço colonial com a Espanha e integrar-se ao mercado liberal europeu. Além disso, ao contrário do Brasil, que, após a independência, tornou-se um império, as antigas colônias americanas se fragmentaram em várias repúblicas, apesar da tentativa de Simon Bolívar em mantê-las unidas.

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Antecedentes da independência da América Espanhola

No século XVIII, o movimento iluminista sacudiu a Europa com suas ideias de liberdade e ênfase no racionalismo. Os filósofos iluministas defendiam a razão como fonte do conhecimento em contraponto ao pensamento religioso. Outro alvo desses filósofos foi o absolutismo. Percebeu-se que não bastava apenas destronar um monarca absolutista, pois seu sucessor continuaria exercendo o poder absoluto.

Era preciso modificar a estrutura política e, para isso, o iluminista Barão de Montesquieu desenvolveu a teoria dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), cada qual com sua função, funcionando de forma independente e harmônica. Dessa forma, o absolutismo poderia ser combatido, pois nenhum poder iria se sobrepor ao outro.

Aos poucos, o Antigo Regime começava a ser questionado, abrindo espaço para uma renovação na política europeia. As ideias iluministas de combate ao absolutismo não demoraram a chegar às colônias americanas e motivar revoltas contra o domínio colonial.

A independência dos Estados Unidos, em 1776, foi outro movimento de contestação ao absolutismo. Influenciados pelos ideais iluministas, os norte-americanos começaram a elaborar a formação de uma república independente da América.

Além da influência intelectual, outro fato que contribuiu para o levante contra a Inglaterra foi a cobrança de impostos. Enquanto os ingleses lutavam contra seus inimigos, a conta desse combate chegava ao outro lado do Atlântico, na forma de tributos cada dia mais altos.

A declaração da independência norte-americana, em 4 de julho de 1776, foi o grande motivador para que as outras colônias americanas se animassem para seguir o mesmo caminho. Apesar da repressão das monarquias, os colonos começaram a se organizar para se libertar das amarras coloniais. A metrópole se tornou um entrave no desenvolvimento colonial.

Outro fator que incentivou a independência das colônias americanas foi a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder na França pós-revolução. O movimento iniciado em 1789 promoveu mudanças significativas na França, como o fim da monarquia absolutista, simbolizada na decapitação do rei Luís XVI, formando-se uma república constitucional.

Napoleão Bonaparte encerrou o processo revolucionário e elevou a França à condição de um império em expansão pela Europa. Para combater a Inglaterra, considerada a principal inimiga dos franceses, Napoleão obrigou as demais nações europeias a romperem relações com os ingleses. Portugal e Espanha não romperam e tiveram seus reinos ocupados pelas tropas francesas. A Espanha foi governada por José Bonaparte, o que influenciou diretamente na independência da América Espanhola, pois o novo rei não foi reconhecido no seu território e muito menos nas colônias.

Causas da independência da América Espanhola

A movimentação das tropas napoleônicas na Península Ibérica foi determinante para a independência da América Latina. Os colonos latino-americanos não reconheceram o poder de José Bonaparte na Espanha, gerando inúmeros protestos. Os criollos aproveitaram a instabilidade política e começaram a organizar um movimento pela independência das colônias espanholas.

As ideias iluministas já estavam difundidas pela América e ajudaram a unir as forças contra o poder espanhol. Nesse processo de luta pela independência, surgiram líderes como Simon Bolívar e José de San Martín, que despertaram a nacionalidade entre os colonos.

O movimento de independência aconteceu praticamente de forma simultânea, originalmente nas cidades e, logo em seguida, espalhando-se para o campo. “Seu êxito dependeu do caráter da liderança criolla, nas cidades, e do apoio que receberam nas áreas rurais. No processo, tiveram grande importância as discussões nos cabildos, veículos de expressão da elite colonial”.|1| A independência começou e foi liderada pelas camadas mais elevadas da sociedade, espalhando-se entre as classes médias e os escravizados.

A independência da América Espanhola contou com o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, que enxergavam as colônias americanas independentes como mercado consumidor dos seus produtos industrializados. As guerras pela independência apenas contaram com o apoio norte-americano e inglês após a derrota da França bonapartista, em 1815.

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A independência da América Espanhola

A independência da América Espanhola se desenvolveu de forma violenta, mediante conflitos entre colonos e colonizadores. Sem o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, os levantes dos colonos foram derrotados, mas a situação se tornou favorável após o apoio dessas duas potências à causa da independência.

James Monroe foi presidente dos Estados Unidos e responsável pela doutrina que impediu a interferência europeia na independência latino-americana.
James Monroe foi presidente dos Estados Unidos e responsável pela doutrina que impediu a interferência europeia na independência latino-americana.
  • Movimentos precursores (1780-1810)

Sozinhos, os colonos não conquistariam a independência. Isso ficou claro entre os anos de 1780 e 1810, quando as primeiras revoltas contra a dominação espanhola foram severamente derrotadas.

Apesar do resultado adverso, esses conflitos mostraram a fragilidade da colonização espanhola, que demorou anos para derrotar seus inimigos, e motivaram outros colonos a organizarem levantes militares contra a Espanha. Essas revoltas também tinham caráter local, sem nenhuma ligação com a causa pela independência, como o Paraguai, em 1721, quando os criollos se revoltaram contra os padres jesuítas que impediam a escravização dos índios.

Em 1810, a Revolta de Tupac Amaru, no Peru, foi um conflito organizado por escravizados indígenas contra o trabalho ao qual estavam submetidos. Os rebeldes queriam melhores condições de trabalho, o fim do trabalho infantil nas tecelagens e o pagamento de melhores salários.

Essa revolta durou três anos, o que demonstra a dificuldade das tropas espanholas em derrotar seus opositores. Quando foram derrotados, os líderes da revolta foram mortos em praça pública, tendo os corpos esquartejados. No mesmo ano, o criollo venezuelano Francisco Miranda liderou outro levante contra os espanhóis, mas assinou um armistício com os colonizadores, em 1812.

A independência do Haiti, em 1791, foi mais um motivo para que os criollos se rebelassem contra a dominação espanhola. O Haiti era colônia francesa e se rebelou contra a escravidão. Os haitianos derrotaram os franceses, que tentaram debelar a rebelião, e a independência do Haiti foi proclamada, em 1806.

Veja também: Revolução Haitiana – rebelião de escravos que resultou na independência do Haiti

  • Rebeliões fracassadas (1810-1816)

As rebeliões fracassadas entre 1810 e 1816 foram difusas. Na Espanha, a guerra contra os invasores franceses teve, inicialmente, o apoio dos criollos, mas esse apoio acabou quando a causa criolla mudou para a luta pela independência.

A instabilidade no reino espanhol por conta da guerra contra José Bonaparte motivou os colonos na América a se levantarem contra o domínio metropolitano. Apesar desses levantes, o fracasso foi iminente porque os criollos não tinham apoio externo para sustentar a batalha.

Os Estados Unidos, por conta de acordos comerciais com a Espanha, evitaram apoiar os levantes americanos. A Inglaterra estava concentrada na luta contra a França napoleônica. Essa falta de apoio norte-americano e inglês foi decisiva nessas derrotas. Por conta das diversidades regionais, não havia coesão na luta contra os colonizadores.

  • Rebeliões vitoriosas (1816-1824)

As rebeliões coloniais contra o domínio espanhol só começaram a ter êxito em 1815, quando Napoleão Bonaparte foi derrotado e a Inglaterra pôde, de fato, investir nas rebeliões das colônias na América Espanhola. Simon Bolívar liderou uma campanha militar na Venezuela, na Colômbia e no Equador, enquanto San Martín liderou o levante na Argentina, no Chile e no Peru. Rapidamente os espanhóis foram se rendendo e os colonos conseguiram a vitória. Em 1822, Bolívar e Martín se encontraram em Guayaquil, no Equador, quando Martín entregou a Bolívar o comando do exército de libertação.

Com as vitórias dos colonos na América, os antigos colonizadores se reuniram na Santa Aliança, conferência dos países europeus que derrotaram Napoleão Bonaparte e pretendiam retomar os domínios antes da expansão francesa, e ameaçaram retomar suas colônias na América. Dessa vez, foram os Estados Unidos que agiram em favor da independência da América Espanhola.

A Doutrina Monroe determinava que os norte-americanos deveriam defender o continente americano contra qualquer ameaça europeia. Essa doutrina esbarrava nos interesses ingleses na região, mas garantiu a consolidação da independência da América Espanhola.

Consequências da independência da América Espanhola

Simon Bolívar foi o líder da independência da América Espanhola e pretendia unir as nações latino-americanas após esse evento, mas sem sucesso. [1]
Simon Bolívar foi o líder da independência da América Espanhola e pretendia unir as nações latino-americanas após esse evento, mas sem sucesso. [1]

Em 1826, Simon Bolívar convocou os países independentes a participarem da Conferência do Panamá e discutirem o futuro das novas nações. Bolívar propôs a formação de uma confederação pan-americana, com as antigas colônias espanholas unidas territorialmente após a independência.

Contudo, o ideal bolivariano esbarrou nos interesses das oligarquias locais e da oposição dos Estados Unidos e da Inglaterra, que, por conta dos seus interesses econômicos, acreditavam ser viável a fragmentação da América Espanhola em várias repúblicas independentes, como de fato aconteceu. Outros fatores que levaram as nações latino-americanas a seguirem um caminho diferente do planejado por Bolívar foram:

  • o isolamento geográfico,

  • a divisão administrativa colonial e

  • a falta de integração entre as economias das novas nações.

A independência da América Espanhola teve outras consequências no longo prazo. A herança colonial manteve a estrutura social dominante, não permitindo a participação popular nas decisões governamentais nem medidas que atenuassem a desigualdade social. Além disso, manteve-se a dependência econômica da Inglaterra.

A formação de repúblicas na antiga América Espanhola despertou o interesse das províncias brasileiras após a independência, em 1822. Revoltas como a Confederação do Equador, em 1824, demonstravam o interesse de alguns grupos em adotarem o mesmo caminho seguido pelas antigas colônias espanholas. Entretanto, ao contrário de Bolívar, o imperador brasileiro Dom Pedro I obteve êxito em manter a unidade territorial do Brasil.

Leia também: Revolução Cubana – processo revolucionário que derrubou a ditadura vigente da época

Resumo sobre a independência da América Espanhola

A independência da América Espanhola foi influenciada pelas ideias iluministas, a independência dos Estados Unidos e a invasão da França à Espanha.

  • As causas da independência foram o peso econômico da metrópole sobre a colônia, a instabilidade política na Espanha por conta do reinado de José Bonaparte e a busca por maior participação da economia colonial no mercado liberal.

  • Sem o apoio inglês e norte-americano, as revoltas coloniais fracassaram, mas, após o apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos, Simon Bolívar e José Martín conseguiram liderar levantes militares que derrotaram os espanhóis e garantiram a independência da América Espanhola.

  • As consequências da independência foram: tentativa sem sucesso de Simon Bolívar de fazer uma confederação pan-americana que garantisse a unidade territorial na América Latina, mas as diversidades de cada região e a influência inglesa promoveram a fragmentação do continente em várias repúblicas.

Exercícios resolvidos

Questão 1 – Simon Bolívar foi o principal líder da independência da América Latina. Por causa da sua liderança, ele convocou a Conferência do Panamá, em 1826, para determinar quais rumos as novas nações latino-americanas recém-independentes deveriam seguir. A proposta de Simon Bolívar para as novas nações foi:

A) seguir o exemplo do Brasil e se transformar em um império.
B) exigir que os ingleses colonizassem a América Latina em troca do seu desenvolvimento econômico.
C) formar uma conferência pan-americana que garantisse a unidade territorial na América Latina.
D) garantir a divisão do território em repúblicas governadas pelas oligarquias locais.

Resolução

Alternativa C. Simon Bolívar defendeu, na Conferência do Panamá, a unificação territorial das nações latino-americanas recém-libertas, mas sua tese foi derrotada por causa da diversidade da região e da influência inglesa na fragmentação do continente.

Questão 2 – Trata-se de um movimento que defendia o pensamento racional e extremamente crítico do absolutismo. As ideias desse movimento ganharam força nas colônias americanas, influenciando no processo de independência dos Estados Unidos, da América Espanhola e do Brasil. Esse movimento é chamado de:

A) Abolicionismo
B) Direito divino
C) Colonialismo
D) Iluminismo

Resolução

Alternativa D. O movimento iluminista, no século XVIII, teve grande influência na independência das colônias americanas. Os filósofos iluministas eram contrários ao absolutismo e criaram teorias políticas que dividiam o poder e evitavam a formação de um governo absoluto e opressor. Essas críticas animaram os colonos a se rebelarem contra as monarquias absolutistas, que os dominavam havia bastante tempo.

Nota

|1| MOTA, Myrian Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História das cavernas ao Terceiro Milênio. São Paulo: Moderna, 1996.

Crédito da imagem

[1] Neveshkin Nikolay / Shutterstock    

Por: Carlos César Higa

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