Figuras de palavras

As figuras de palavras são recursos estilísticos que dão novos sentidos, em diferentes contextos discursivos, às palavras.

As figuras de palavras são um dos tipos de figuras de linguagem
As figuras de palavras são um dos tipos de figuras de linguagem

Sabemos que as palavras podem adquirir novos sentidos dependendo do contexto em que estão sendo utilizadas. Esses deslocamentos de sentido e de contextos pelos quais as palavras passam são frequentes na Língua Portuguesa e são reconhecidos como recursos de estilo, denominados de Figuras de Palavra. Vejamos quais são elas:

METÁFORA

A metáfora é a mais conhecida das figuras de palavras. Consiste na transferência de uma palavra para um contexto de significação que não lhe é próprio, ou seja, baseia-se na utilização de uma palavra ou uma expressão em lugar de outra sem que haja uma relação real, mas, em virtude da circunstância, há entre elas certas semelhanças.

As metáforas são criadas a partir de uma relação de semelhança que pressupõe um processo anterior de comparação. Isso significa que toda metáfora é uma espécie de comparação implícita em que o elemento comparativo não aparece. Podemos dizer que a comparação implícita está na base da formação de metáforas.

Como a metáfora tem sentido conotativo e depende do contexto para produzir efeitos de sentido, se ela estiver cristalizada na língua portuguesa, passará a ser uma catacrese. Por exemplo: “braço da cadeira”.

Observe a gradação no processo metafórico abaixo:

  • Você é como a luz, como o raio, a estrela e o luar.

O exemplo mostra uma comparação evidente por meio do emprego da palavra como.

Observe agora:

  • “Você é luz, é raio, estrela e luar”. (Fogo e Paixão, Wando)

Nesse caso, não há mais uma comparação. Observe a ausência da partícula comparativa 'como' e a relação de similaridade. Há substituição da palavra 'olhos' por 'luzes brilhantes'.

Observe outros exemplos:

  • "Meu coração é uma rosa com espinhos." (Fernando Pessoa)

Nessa oração, o poeta português estabelece relações de semelhança entre uma 'rosa com espinhos' e seu 'coração'. Nesse sentido, é possível relacionar o pensamento à fluidez e à profundidade de um rio.

  • O corpo é a morada da alma.

Nesse período, 'O corpo é a morada da alma é uma metáfora. O uso dessa expressão sugere uma definição do que vem a ser o corpo a partir de uma comparação implícita.

METONÍMIA

A metonímia consiste no emprego de um termo no lugar de outro para designar uma ideia que mantém uma relação de proximidade (contiguidade) com o significado da palavra ou termo substituídos. Dessa forma, há entre ambos uma estreita afinidade ou relação de sentido. A Metonímia pode ocorrer em duas situações distintas: Antonomásia e Sinédoque.

Antonomásia

Essa forma metonímica consiste na identificação de uma pessoa por uma característica que a distingue das demais, e não pelo seu nome próprio. O poeta romântico Castro Alves, por exemplo, é comumente lembrado como “Poeta dos Escravos” em virtude do fato de ter escrito muitos poemas que denunciavam os problemas do sistema escravocrata do Brasil no século XIX.

Sinédoque

Essa Metonímia ocorre quando há uma substituição de uma palavra por outra. Nesse contexto, a palavra sofre uma redução ou ampliação de seu sentido denotativo. Por exemplo, observe o trecho da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna e não comprar o pão com o suor do meu rosto”. Veja que o sentido das palavras 'pão' e 'suor' está ampliado, já que a primeira refere-se a um alimento e a segunda, ao trabalho. Para enfatizar o fato de que o personagem Brás Cubas nunca havia trabalhado, o autor recorre a uma Sinédoque.

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Agora leia alguns exemplos e observe que o uso metonímico de algumas palavras e/ou expressões ocorre quando se toma:

  • A parte pelo todo: “Muitas cabeças foram responsáveis pela conclusão desse projeto”. (Muitas pessoas foram responsáveis pelo projeto);

  • O continente pelo conteúdo: “Pedro é bom de garfo”. (Pedro tem muito apetite);

  • O autor pela obra: “Adoro ler Machado de Assis”. (Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.);

  • A marca pelo produto: “Preciso comprar um durex na papelaria. (Preciso comprar uma fita adesiva.);

  • O inventor pelo invento: Santos Dumont unificou o mundo. (O avião inventado por Santos Dumont unificou o mundo.);

  • O símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (Não te afastes do cristianismo);

  • O lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso Havana. (Fumei um saboroso charuto.);

  • O efeito pela causa: Dona Filomena bebeu a morte. (Dona Filomena bebeu veneno.);

  • A causa pelo efeito: Moro em uma metrópole e como do meu trabalho. (Moro na metrópole e como o alimento que compro com o dinheiro que ganho por trabalhar.);

  • O instrumento pela pessoa que utiliza: Os microfones foram atrás dos jogadores. (Os repórteres foram atrás dos jogadores.);

  • O gênero pela espécie: Os inteligentes pensam e sofrem nesse mundo. (Os homens inteligentes pensam e, por isso, sofrem nesse mundo.);

  • O singular pelo plural: A mulher conquistou o direito ao voto somente no século XX. (As mulheres [não apenas uma mulher] conquistaram o direito de votar somente no século XX.);

  • A espécie pelo indivíduo: O homem pisou a Lua. (Alguns astronautas foram à Lua.);

  • O símbolo pela coisa simbolizada: A balança penderá para teu lado. (A justiça ficará do teu lado.).

COMPARAÇÃO

A Comparação (Símile) ocorre quando elementos distintos são aproximados por meio de termos específicos, a saber: como, feito, tal qual, assim como, tal etc.

Observe os exemplos:

  • Ele partiu como um raio.

  • Maria é desorganizada tal qual o pai.

  • Gostei de ter conhecido Belo Horizonte, assim como gostei de ter conhecido Salvador.

CATACRESE

A catacrese ocorre quando utilizamos uma palavra para substituir um termo em virtude da falta de palavras específicas para designar partes ou o todo de um objeto. Essa substituição ocorre a partir de elementos ou semelhanças conceituais. Assim, empregamos algumas palavras fora de seu sentido original.

Observe os exemplos:

  • Asa da xícara;

  • Batata da perna;

  • Maçã do rosto;

  • Pé da cadeira;

  • Braço da poltrona.

PERÍFRASE

Trata-se de uma expressão que designa um ser a partir de suas características ou atributos ou de um fato que o celebrizou.

Observe o exemplo:

  • A Cidade Maravilhosa (Rio de Janeiro) continua linda!

ANTONOMÁSIA

A Antonomásia é utilizada quando a Perífrase indica uma pessoa.

Observe o exemplo:

  • O Poeta dos Escravos (Castro Alves) defendia as causas nacionalistas em suas obras.

SINESTESIA

A Sinestesia ocorre pela associação de sensações percebidas por diferentes órgãos de sentido utilizadas em uma mesma expressão. Essa figura de palavra pode ser compreendida como uma Metáfora, já que relaciona elementos sensoriais distintos.

Observe os exemplos:

  • Senti aspereza em seu olhar. (Sentir aspereza = tato; olhar = visão)

  • No silêncio negro daquele momento, pressentia o fim. (Silêncio = audição; negro = visão)

Como você pôde observar, as Figuras de Palavra revelam um trabalho estilístico de uso da linguagem no nível das palavras e que seu uso é bastante frequente em nosso cotidiano.

Aproveite para conferir as nossas videoaulas relacionadas ao assunto:

Por: Luciana Kuchenbecker Araújo

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