Figuras de sintaxe

As figuras de sintaxe são encontradas na linguagem literária, atuando como um importante recurso estilístico que explica alguns tipos de desvios linguísticos.

Alguns tipos de figuras de sintaxe: Elipse, zeugma, pleonasmo, anacoluto, prolepse, assíndeto, polissíndeto, eufemismo e hipérbole
Alguns tipos de figuras de sintaxe: Elipse, zeugma, pleonasmo, anacoluto, prolepse, assíndeto, polissíndeto, eufemismo e hipérbole

Provavelmente você já ouviu falar nas figuras de linguagem, não é mesmo? Recurso estilístico muito empregado na linguagem literária, elas estão relacionadas ao discurso conotativo, no qual predomina o uso de metáforas que subvertem o real sentido das palavras. Mas dentro dos fenômenos característicos do discurso literário, existem também as figuras de sintaxe, que são responsáveis por produzir uma sintaxe incomum ao texto.

As figuras de sintaxe também são conhecidas como figuras de construção e recebem esse nome porque com frequência promovem desvios sintáticos e concordâncias irregulares que imprimem características incomuns à construção linguística. As figuras de sintaxe são mais utilizadas quando a intenção é conferir maior expressividade ao texto. Observe alguns dos principais tipos de figuras de sintaxe e seus exemplos. Bons estudos!

1. Elipse: é a omissão de um termo que pode ser facilmente subentendido através da análise do contexto da frase, pois esse termo foi anteriormente enunciado ou sugerido na oração. Observe o exemplo de elipse na música de Edu Lobo:

(...) Onde a minha namorada...
Vai e diz a ela as minhas penas e que eu peço

Peço apenas
Que ela lembre as nossas horas de poesia (...)”.

(Canto triste – Edu Lobo) 

No trecho “Onde a minha namorada”, o verbo estar ou andar está subentendido. Vale lembrar que há um caso específico de elipse, conhecido como zeugma, em que há uma omissão de um termo já citado na frase, como no exemplo: O poeta faz versos, eu narrativas. Observe que a forma verbal faz não foi repetida, justamente por ter sido citada anteriormente.

2. Pleonasmo: consiste na repetição de um termo já expresso ou até mesmo de uma ideia. Sua principal função, quando na linguagem literária, é conferir clareza ou ênfase. Observe um exemplo de pleonasmo na música de Jorge Ben Jor:

Chove chuva
Chove sem parar
Pois eu vou fazer uma prece
Pra Deus, nosso Senhor
Pra chuva parar
De molhar
o meu divino amor (...)”.

(Chove Chuva - Jorge Ben Jor)

3. Anacoluto: consiste na quebra da estruturação gramatical da frase. Esse é um recurso muito empregado na transcrição de diálogos, técnica que procura reproduzir na escrita a língua falada. Observe um exemplo de anacoluto na música de Chico Buarque:

“(...) Sim, foi que nem um temporal 
Foi um vaso de cristal 
Que partiu dentro de mim 
Ou quem sabe os ventos 
Pondo fogo numa embarcação 
Os quatro elementos 

Num momento de paixão (...)”.

(Embarcação – Chico Buarque)

4. Antecipação ou prolepse: consiste no emprego de um termo que originalmente não estaria naquele lugar, ou seja, encontra-se fora do lugar que gramaticalmente lhe foi convencionado. Dentro de uma narrativa, a prolepse pode surgir para antecipar um fato da história que, cronologicamente, só acontecerá depois. Observe o exemplo de antecipação em um fragmento do livro Levantando do chão, de José Saramago:

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"[...] Manoel Espada teve de ir guardar porcos e nessa vida pastoril se encontrou com Antônio Mau-Tempo, de quem mais tarde, em chegando o tempo próprio, virá a ser cunhado. [...]"

(José Saramago - Levantado do Chão)

5. Polissíndeto/Assíndeto: As duas figuras de sintaxe apresentam funções opostas. Enquanto no polissíndeto ocorre a repetição das conjunções coordenativas, no assíndeto a característica principal é a ausência delas. Observe o exemplo na música de Gonzaguinha:

(...) Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver (...)”.

(Não dá mais pra segurar – Explode coração - Gonzaguinha)

6. Antítese: consiste na oposição entre uma ou mais ideias, e justamente por isso ela se torna uma figura de sintaxe facilmente identificada em um texto. Observe o exemplo na música de Lulu Santos:

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim (...)”.

(Certas coisas – Lulu Santos)

7. Catacrese: é uma espécie de “metáfora desgastada”, pois apresenta uma palavra que perdeu seu sentido original. Observe o exemplo na música de Djavan:

Eu não sei
Se vem de Deus
Do céu ficar azul
Ou virá
Dos olhos teus
Essa cor
Que
azuleja o dia? (...)”.

(Azul – Djavan)

8. Hipérbole: consiste em exagerar uma ideia com a intenção de enfatizá-la. Observe o exemplo de hipérbole na música de Cazuza e Leoni:

(...) Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome

Se você não me amar (...)”.

(Exagerado – Cazuza e Leoni)

9. Eufemismo: é o extremo oposto da hipérbole. Nele, as ideias são suavizadas para que fiquem mais agradáveis. Observe o exemplo de eufemismo no poema de Manuel Bandeira:

“Quando a Indesejada das gentes chegar 
(Não sei se dura ou caroável), 
Talvez eu tenha medo. 
Talvez sorria, ou diga: 
                                       – Alô, iniludível!  [...]”.

(Fragmento do poema “Consoada”, de Manuel Bandeira)

10. Prosopopeia: consiste em atribuir características de seres animados a seres inanimados. Observe o exemplo na música de Chico Buarque:

Não se afobe, não
Que nada é pra já

O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar (...)”.

(Futuros amantes – Chico Buarque)  

Aproveite para conferir a nossa videoaula relacionada ao assunto:

Por: Luana Castro Alves Perez

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