Anacoluto

Anacoluto é uma figura de linguagem relacionada ao isolamento de uma palavra ou expressão no início do enunciado, quebrando sua estrutura sintática. Essa figura difere-se do hipérbato, que também afeta a estrutura do enunciado.

Leia também: Como as figuras de linguagem são cobradas no Enem?

O que é anacoluto?

Anacoluto é uma figura de linguagem na qual um termo no início do enunciado acaba isolado, perdendo sua função sintática. Desse modo, a palavra ou expressão isolada é tida como uma espécie de tópico a respeito do qual o enunciado fala.

Por afetar a estrutura do enunciado e a disposição dos termos linguísticos que o compõem, o anacoluto é classificado como figura de sintaxe (ou figura de construção).

Uso do anacoluto

O anacoluto é muito comum na linguagem coloquial, especialmente na linguagem oral, falada. Veja:

Esse livro, ele tem uma história muito boa!

No caso acima, o termo “esse livro” serviria como sujeito da oração. No entanto, o pronome “ele” (que se refere a “esse livro”) toma para si essa função, deixando o termo “esse livro” sem função e isolado do restante do enunciado. É como se o enunciador decidisse reconstruir a oração no meio do discurso. Assim, o termo “esse livro” serve de tópico, indica o assunto que será abordado.

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O anacoluto também aparece na literatura, como neste trecho do conto “O iniciado do vento”:

“Desculpe-me. Vim eu mesma trazer o café. Essas criadas de hoje não se pode confiar nelas.”
(Aníbal Machado)

Neste caso, o anacoluto ocorre no isolamento do termo “essas criadas de hoje”, que teria função de objeto indireto. Essa função foi passada para o termo “nelas”, deixando “essas criadas de hoje” isolado na sentença, indicando apenas o tópico. Veja a diferença na construção do enunciado:

  • Não se pode confiar nessas criadas de hoje.
  • Essas criadas de hoje não se pode confiar nelas.

O anacoluto também se mostra presente em textos poéticos e até em músicas. Na canção “Como dois animais”, há anacoluto nos seguintes versos:

Uma onça-pintada / E seu tiro certeiro / Deixou os meus nervos / De aço no chão”
(Alceu Valença)

Veja que “uma onça-pintada” é um termo isolado do restante do enunciado, já que o verbo deixar está no singular, indicando que o único sujeito é “seu tiro certeiro”. No entanto, “uma onça-pintada” serve como um tópico que abre o enunciado em: “e seu tiro certeiro deixou os meus nervos de aço no chão”, sabemos que o pronome “seu” faz referência ao termo “uma onça-pintada”, que não tem função sintática naquele contexto.

Leia também: Zeugma – figura de linguagem que consiste na omissão de um termo mencionado anteriormente

Diferença entre anacoluto e hipérbato

Hipérbato é outra figura de sintaxe em que há deslocamento de um termo ou expressão no enunciado. Contudo, no hipérbato, esse deslocamento não resulta em termos sem função sintática nem altera a função sintática dos elementos no enunciado: ocorre apenas uma transposição que altera a ordem em que tais elementos aparecem, gerando uma intercalação no discurso. Veja:

O público estava feliz e empolgado com o lançamento desse filme.

  • Anacoluto: Esse filme, o público estava feliz e empolgado com o seu lançamento.
  • Hipérbato: O público estava, com o lançamento desse filme, feliz e empolgado.
O anacoluto é uma figura de sintaxe muito frequente na linguagem coloquial e literária.
O anacoluto é uma figura de sintaxe muito frequente na linguagem coloquial e literária.

Exercícios resolvidos

Questão 1 – (IFCE) Na frase: “A minha vizinha, ouvi dizer que teve um acidente”, encontramos a seguinte figura de linguagem:

A) Metonímia

B) Anacoluto

C) Catacrese

D) Hipérbato

E) Silepse

Resolução

Alternativa B. O termo “A minha vizinha” fica isolado do restante do enunciado, não tendo função sintática nele.

Questão 2 - (Quadrix)

Mineirinho

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e, no entanto, nós o queríamos vivo. [...]

Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. [...]

Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. [...] Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. [...]

A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. [...] o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. [...] Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. [...]

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.

Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. [...]

Clarice Lispector

(Disponível em ip.usp.br. Adaptado.)

Veja esta definição: “Período iniciado por uma palavra ou locução, seguida de pausa, que tem como continuação uma oração em que essa palavra ou locução não se integra diretamente, embora esteja integrada pelo sentido e, de alguma forma, retomada sintaticamente”. No texto apresentado, há algumas ocorrências dessa estrutura, denominada anacoluto. Assinale a alternativa que contenha um período do texto em que isso aconteça.

A) O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

B) Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela.

C) Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro.

D) Se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade.

E) Uma justiça que não se esqueça de [...] que na hora em que o justiceiro mata, [...] ele está cometendo o seu crime particular.

Resolução

Alternativa B. O termo “essa justiça que vela meu sono” acaba isolado da oração “eu a repudio”, já que o objeto da oração passa a ser o termo “a”.

Por: Guilherme Viana

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