Mário Quintana

À procura de palavras para falar deste nobre representante de nossas letras, encontramo-las, magnificamente, nas criações que compusera, das quais quatro delas se encontram abaixo evidenciadas:

Canção da garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!

não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

a mágica presença das estrelas!


Se o poeta falar num gato

Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que
                                                    morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
E disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!


Poderíamos atribuir à primeira delas, “Canção da garoa”, uma herança parnasiana? Sim, sobretudo no que diz respeito à estética formal do poema: versos rimados, forma composicional de soneto, enfim.

Quanto à segunda poesia, “Bilhete”, constatamos um clima verdadeiramente nostálgico, uma habilidade de quem traz no âmago da alma todo sentimentalismo, toda emoção... um romântico tardio? Sim, um ultrassensível, mas aquele ultrassensível longe de traços pessimistas, tampouco egocêntricos.

Na terceira delas, “As utopias”, a voz parece sussurrar bem pertinho aos nossos ouvidos, manifestando-se pela intenção de alguém que parece nos dar um conselho, alguém que tem consciência dos dissabores existenciais e, por isso mesmo, revela que é importante sonhar e cultivar a magia... das estrelas, por que não? 

Na última das criações citadas, “Se o poeta falar num gato”, constatam-se versos livres, pois traços modernistas tenderam a acompanhar as manifestações artísticas, sobretudo pelo culto ao prosaico, aos aspectos voltados para o coloquial, para o cotidiano. Aspecto esse sempre associado àquela voz interiorana, mesclada a um autêntico lirismo, demarcado pelo labor expressivo do poeta em questão.

Mediante tal magnitude artística, resta-nos conhecer um pouco mais da vida desse inigualável poeta. Assim, Mário Quintana nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 30 de junho de 1906. Mudando-se para Porto Alegre, tão logo se encarregou de ingressar no Colégio Militar, mas foi necessário interromper o curso para se dedicar à carreira jornalística. Outra atuação esteve presente na tradução de obras literárias, entre as quais podemos destacar “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust e
“Mrs. Dalloway” de Virgínia Woolf.

Aos 34 anos de idade se entregou de todo à atividade literária, lançando seu primeiro livro com temática infantil, “A rua dos cataventos”. Em 1946 lançou novamente a obra “Camões”; e, dois anos mais tarde, “Sapato florido”. Somente em 1966 foi reconhecido nacionalmente, chegando a ganhar o Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira dos Escritores, por meio da obra “Antologia Poética”. Nesse mesmo ano foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras.

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No dia cinco de maio de 1994 perdemos esse nobre representante artístico que se fez e ainda se faz visto no cenário da Literatura brasileira.               

Eis algumas de suas obras: Poesia: A Rua dos Cataventos, 1940; Canções, 1946; Sapato florido, 1948; O aprendiz de feiticeiro, 1950; Espelho mágico, 1951; Poesias, 1962; Quintanares, 1976; A vaca e o hipogrifo, 1977; Esconderijos do tempo, 1980; Baú de espantos, 1986; Preparativos de viagem, 1987; Da preguiça como método de trabalho, 1987; Porta giratória, 1988; A cor do invisível, 1989; Velório sem defunto, 1990; Água, 2001.  

Literatura infantil: O batalhão das letras, 1948; Pé de pilão, 1968; Lili inventa o mundo, 1983; Nariz de vidro, 1984; O sapo amarelo, 1984; Sapato furado, 1994.  

Antologias:Antologia poética, 1966; Prosa e verso, 1978; Na volta da esquina, 1979; Nova antologia poética, 1981; Literatura comentada, 1982; Primavera cruza o rio, 1985; 80 anos de poesia, 1986; Ora bolas, 1994.

Mário Quintana – poeta ultrassensível por natureza

Mário Quintana – poeta ultrassensível por natureza

Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

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