Os jornais e a censura do regime militar

Quando falamos em censura, logo nos reportamos aos tempos em que a Ditadura Militar controlou os meios de comunicação e manifestações artísticas do país. Contudo, esse tipo de controle já é bastante antigo em nosso passado, sendo já percebido durante a colonização. Naqueles tempos, a Coroa Portuguesa e os inquisidores da Igreja atuavam na busca de publicações que pudessem ter conteúdo inapropriado. Até o século XVIII, o Brasil não possuía nenhuma loja ou empresa de tipografia.

Durante o regime militar, os órgãos de comunicação foram duramente vigiados para que nenhum tipo de informação ofensiva contra o governo chegasse ao conhecimento da população. Afinal de contas, o impacto de uma denúncia ou a realização de alguma crítica poderia instigar a oposição ao governo e, em pouco tempo, ameaçar a longevidade do regime de exceção que controlou a nação brasileira por praticamente duas décadas.

Muitas vezes, o mecanismo de repressão do governo nem precisava chegar a anular a publicação de uma matéria pronta. Os próprios editores e jornalistas sabiam que tipo de notícia poderia inflamar os ânimos dos representantes do regime. Em alguns casos, antes que uma notícia fosse divulgada, era comum que os censores enviassem bilhetes ou fizessem ligações que já determinavam aquilo que não iria para as páginas de jornal. Já em outras situações, a visita de um censor empreendia um controle ainda maior.

Para que algumas informações fossem repassadas, os comunicadores dessa época utilizavam de uma série de recursos para então divulgar mensagens bastante sugestivas. Falsas previsões do tempo anunciando “tempo fechado” ou a chegada de “fortes ventos” poderiam indicar que a censura atuou de modo ferrenho contra o jornal. Muitas vezes, uma censura realizada de última hora tinha a capacidade de desorganizar uma página inteira já diagramada para a edição do dia seguinte.

Buscando a denúncia da ação da censura, alguns jornais publicavam poemas famosos ou receitas no lugar das notícias vetadas. A censura chegou a proibir que as páginas ficassem em branco. Imagine encontrar os versos de Camões no meio de um caderno de política ou uma receita de pão de queijo entre as páginas policiais. A sensação de estranheza e desconforto era bem menor do que a dos repórteres e redatores que tinham informações inteiras arrancadas de um veículo de comunicação de grande circulação.

Com o processo de abertura, iniciado em 1978, observou-se que os jornais começaram a ter maior liberdade para cumprirem a sua função pública original. No entanto, isso não quer dizer que hoje vivamos em uma era de plenas liberdades. A maciça injeção de verbas públicas em alguns veículos de comunicação forçou diversos jornalistas a não escreverem determinados assuntos em prol da manutenção do seu emprego. Parece que os tempos são outros, mas os dilemas ainda vigoram de certo modo.
Ao centro, um censor revisa uma edição do “Estadão” antes que a mesma chegasse às bancas de jornal.

Ao centro, um censor revisa uma edição do “Estadão” antes que a mesma chegasse às bancas de jornal.

Por: Rainer Sousa

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