Princesa Isabel, entre a cruz e o pelourinho

Princesa Isabel, a “redentora” dos escravos em cédula do Tesouro Nacional.*
Princesa Isabel, a “redentora” dos escravos em cédula do Tesouro Nacional.*

Uma das figuras mais conhecidas do Império brasileiro foi a Princesa Isabel. Representada como a “princesa Redentora”, ela assinou a Lei do Ventre livre e a Lei Áurea, enquanto ocupava o trono interino em decorrência de viagens de seu pai, D. Pedro II. Sua caracterização histórica oscila entre a abolicionista e progressista até à recatada e preconceituosa.

Nascida em 1846, no palácio de São Cristóvão, como Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, após seu casamento com Gastão de Orléans, o conde D’eu, receberia ainda o sobrenome deste. Tornou-se a princesa herdeira após a morte de seus dois irmãos mais velhos, D. Afonso e D. Pedro Afonso. Aos 25 anos, tornou-se a primeira senadora da história do Brasil. Não por voto, mas por ser a filha do imperador. Teve três filhos que deram continuidade à família real brasileira

Ao longo da história, criou-se uma imagem em volta da princesa, representando-a como a “redentora” dos escravos. O abolicionista André Rebouças registrou em seu diário que Isabel mandou construir, em 04 de maio de 1888, um acampamento para abrigar 14 escravos fugidos. Em abril do mesmo ano, havia assinado 114 cartas de alforria. Foi ainda de suas mãos que saíram as assinaturas da Lei do Ventre Livre, em 1871, e a Lei Áurea, de 1888, que proibia a escravidão no Brasil, leis promulgadas quando seu pai viajava. Ainda na ação política demitiu o ministério do barão de Cotegipe, defensor da escravidão, criando o caminho parlamentar para aprovar a proibição do escravismo no Brasil. Por essas e outras ações, seu nome foi cogitado junto ao Vaticano para ser beatificada.

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Mas há divergências em torno da figura da “Redentora”. A historiadora Mary Del Priore afirma que Isabel era uma mulher recatada, dedicada à jardinagem, à família, à religião, até com certo preconceito em relação aos escravos, já que era um produto de sua época. Como dona de casa, importava-se com regimes e o cuidado dos filhos. A imagem de santa ficou manchada também pelo fato de ter abandonado André Rebouças, que a acompanhava no exílio e morreu sozinho, ou mesmo o sobrinho Pedro Augusto, internado em um sanatório, sem assistência da tia.

Mas a contradição da imagem de redentora dos escravos está no fato de que sua riqueza e condições luxuosas de vida foram conseguidas a partir do suor, do sangue e da morte de milhões de africanos que foram escravizados nas colônias portuguesas. Tais situações mostram os problemas em mitificar personalidades históricas.

Mesmo advertida pelo marido de que a assinatura da abolição da escravidão poderia representar o fim da monarquia, ela assim o fez. As pressões econômicas e sociais pelo fim da escravidão não deixaram à Isabel muita escolha.

Em 15 de novembro de 1889, caía a Monarquia e se instaurava a República. A Princesa Isabel seguiu para o exílio dias depois com toda a família. Dirigiu-se para a França, onde viveu nas propriedades da família de seu marido, na região da Normandia. Morreu aos 75 anos de idade, em 1921, em Paris. Seus restos mortais foram despachados para o Brasil em 1953, sendo colocados em um mausoléu na cidade fluminense de Petrópolis.

*Créditos da imagem: Georgios Kollidas e Shutterstock.com

Por: Tales Pinto

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