Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos é um poeta único em nossa literatura. A linguagem pouco convencional e o antilirismo de seus versos fizeram dele um dos mais populares poetas brasileiros.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável  
Enterro de tua última quimera.  
Somente a Ingratidão — esta pantera —  
Foi tua companheira inseparável! 

Acostuma-te à lama que te espera!  
O Homem, que, nesta terra miserável,  
Mora, entre feras, sente inevitável  
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!  
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,  
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,  
Apedreja essa mão vil que te afaga,  
Escarra nessa boca que te beija!

Os versos que você leu agora certamente estão entre os mais conhecidos da Literatura Brasileira. Versos íntimos, poema que integra o único livro do poeta pré-modernista Augusto dos Anjos, apresenta características até então pouco convencionais para a época: a linguagem permeada por vocábulos esdrúxulos e o gosto excessivo pela morte renderam a Augusto a curiosa alcunha de “Poeta da morte”.

Vida e obra de Augusto dos Anjos

Nascido em Engenho Pau D'Arco, na Paraíba, em 20 de abril de 1884, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos formou-se em Direito, em Recife, embora tenha atuado como professor durante toda sua vida. Com a esposa, Ester Fialho, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1910, onde trabalhou na Escola Normal, no Ginásio Nacional e depois no Colégio Pedro II sem, contudo, conseguir efetivação como professor.

Em 1913, após a morte do primeiro filho, transferiu-se para Leopoldina, cidade no interior do estado de Minas Gerais. Seu único livro, intitulado Eu, foi publicado um ano antes, em 1912, apresentando ao público um autor bastante original, considerado, até hoje, o mais autêntico entre os poetas brasileiros. Vitimado por uma pneumonia, faleceu jovem, aos trinta anos de idade, no dia 12 de novembro de 1914.

Alguns críticos literários associam a poesia de Augusto dos Anjos ao Simbolismo ou ao Parnasianismo, muito embora as semelhanças fiquem restritas às características formais, já que em relação ao conteúdo são observadas diferenças drásticas. Em virtude dessa discrepância, usualmente o poeta é classificado como pré-modernista ao lado de nomes como Lima Barreto e Monteiro Lobato, cujas obras não correspondem a nenhuma das estéticas de fins do século XIX.

A angústia moral e a dimensão cósmica predominam em sua poesia, que pode ser dividida em três diferentes fases:

1ª Fase: Representada por poemas como Saudade e Versos íntimos, a primeira fase da poesia de Augusto dos Anjos mostra um poeta muito influenciado pelo Simbolismo, ainda distante da originalidade temática encontrada nas fases posteriores:

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Saudade

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença, em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noute quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente,
P’ra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.


E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento, 

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

2ª Fase: Na segunda fase da poesia de Augusto dos Anjos predominam o existencialismo e uma profunda angústia moral, elementos observados em um de seus mais famosos poemas:

Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!

3ª Fase: Na última fase da poesia de Augusto dos Anjos encontramos um poeta mais maduro, cuja produção torna-se mais complexa e menos identificada com as características da primeira e segunda fases:

Ao luar
 

Quando, à noite, o Infinito se levanta 
A luz do luar, pelos caminhos quedos 
Minha tactil intensidade é tanta 
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! 
 

Quebro a custódia dos sentidos tredos 
E a minha mão, dona, por fim, de quanta 
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos, 
Todas as coisas íntimas suplanta! 

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado, 
Nos paroxismos da hiperestesia, 
O Infinitésimo e o Indeterminado... 

Transponho ousadamente o átomo rude 
E, transmudado em rutilância fria, 
Encho o Espaço com a minha plenitude!

Graças à sua originalidade, Augusto dos Anjos está entre os poetas brasileiros que mais foram reeditados: seu único livro, Eu, é publicado por diversas editoras brasileiras, reafirmando assim o interesse do público por esse poeta tão singular em nossa literatura. Unindo o Simbolismo ao cientificismo naturalista, deixou para a literatura universal uma contribuição única, além de ter sido fundamental para as inovações literárias apresentadas pelos modernistas brasileiros a partir da segunda década do século XX.

A originalidade é a principal característica de Augusto dos Anjos, um dos poetas mais populares da Literatura Brasileira

A originalidade é a principal característica de Augusto dos Anjos, um dos poetas mais populares da Literatura Brasileira

Por: Luana Castro Alves Perez

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