Resistência ao neocolonialismo em Madagáscar

O processo modernizador de Madagáscar no século XIX foi interrompido pela ação da França, que impôs o neocolonialismo no país, apesar de ter enfrentado a resistência malgaxe.

A rainha Ranavalona II iniciou o projeto modernizador do país que foi interrompido pelos franceses*
A rainha Ranavalona II iniciou o projeto modernizador do país que foi interrompido pelos franceses*

Madagáscar é uma ilha, localizada na costa sudeste do continente africano que, ao longo do século XIX, teve sua soberania violada pelos franceses durante o processo de neocolonialismo. A pressão da França impôs a colonização ao país e destituiu o governo, que resistiu contra os franceses em duas guerras. Em Madagáscar, houve também movimentos de resistência popular contra esse projeto colonizador realizado pelo país europeu.

Interesses franceses em Madagáscar

Durante o século XIX, Madagáscar era um país independente que possuía sua soberania reconhecida internacionalmente pela principal potência da época – a Inglaterra – desde a assinatura do Tratado Anglo-Merina, de 1820. Os franceses, contudo, somente reconheceram a autonomia de Madagáscar mais de quatro décadas depois, em 1863.

Na mesma época em que o neocolonialismo estava em expansão, Madagáscar estava implantando um projeto modernizador sob a liderança do primeiro-ministro Rainilaiarivony e da rainha Ranavalona II. A intenção do governo malgaxe era modernizar o exército e a administração do país para garantir sua soberania e afastar definitivamente o risco de invasões estrangeiras.

A França, por sua vez, intensificou suas intenções em relação à aquisição de novas colônias e, principalmente a partir da década de 1880, agiu de maneira direta para ocupar Madagáscar. Para estimular os interesses com a ilha africana, os franceses apresentaram-na como um local rico, cheio de recursos e possibilidades econômicas.

O renovado interesse francês em Madagáscar era ação principalmente do lobby colonialista, realizado por parlamentares da ilha de Reunião (localizada no Oceano Índico, próximo a Madagáscar). Esses parlamentares viram na colonização da ilha vizinha uma oportunidade de ter acesso aos recursos do país e, também, de enviar o excesso populacional de Reunião para Madagáscar.

O lobby colonialista sobre Madagáscar também era apoiado pela direita católica, interessada em combater o crescimento do protestantismo levado à região por missionários britânicos. O historiador malgaxe Manassé Esoavelomandroso afirma que até mesmo líderes políticos franceses como Léon Gambetta defendiam a postura colonialista da França|1|.

O interesse desse país europeu por Madagáscar levou à formação de um discurso para justificar uma possível anexação pelos franceses. A respeito dessa propaganda colonialista, Esoavelomandroso comenta:

A propaganda colonial apelava para o chauvinismo, bem como para a missão humanitária e civilizadora da França. A fim de preparar a opinião pública para a conquista, apresentava-se o “Reino de Madagáscar”, com evidente má-fé, como um “Estado bárbaro”, dirigido por uma “tribo estrangeira”, que erigira a “tirania em sistema de governo” e continuava a praticar o tráfico de escravos|2|.

O projeto modernizador desenvolvido em Madagáscar naquele momento, e que visava transformar o país em uma “nação civilizada” aos moldes europeus, não era interessante para os colonialistas franceses, então, a ilha passou a sofrer com ações diretas da França cujo objetivo era desestabilizar o país para, em seguida, anexá-lo.

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Anexação de Madagáscar

As ações da França contra Madagáscar levaram a uma série de atritos e desacordos por questões econômicas que envolviam os franceses já instalados no país. Esses atritos com a França levou Madagáscar a arcar com pesadas indenizações. Isso demonstrava a real intenção francesa de passar por cima do acordo assinado na década de 1860 que ratificava a soberania do país.

Com as relações tensas entre os dois países, o primeiro-ministro malgaxe promoveu duas ações:

  1. Iniciou a compra de armamentos e munições para fortalecer o exército malgaxe e garantir a defesa do país em caso de invasão.

  2. Enviou missões diplomáticas pelo mundo para obter apoio internacional contra os franceses.

A primeira ação forçou o governo malgaxe a aumentar impostos para arcar com esses custos, e isso refletiu na queda da popularidade de Rainilaiarivony. A segunda ação foi um fracasso, pois nenhuma potência queria comprometer-se com Madagáscar contra a França. Com o isolamento internacional, o país foi, então, atacado pelos franceses.

O ataque francês aconteceu em Majunga, na costa noroeste de Madagáscar, em maio de 1883, e deu início à Primeira Guerra Franco-Merina. Esse conflito estendeu-se até dezembro de 1885, quando um cessar-fogo foi assinado entre os dois países. A interrupção desse conflito obrigou os malgaxes a pagarem uma indenização de 10 milhões de francos aos franceses.

Essa indenização de guerra destruiu a economia local, provocando uma crise que causou distúrbios, como os surtos de banditismo, os quais afetaram até mesmo a capital do país, Antananarivo. A conquista francesa sobre o país foi garantida na Segunda Guerra Franco-Merina, que aconteceu em 1894 e 1895.

A vitória francesa no segundo conflito levou à anexação de Madagáscar pela França e iniciou um movimento de resistência popular que ficou conhecido como Menalamba. Os menalamba receberam esse nome em referência à cor de suas roupas sujas de terra (usavam a terra como camuflagem).

A rebelião menalamba lutava principalmente pela expulsão dos invasores franceses, mas também enfrentava a oligarquia local e defendia o resgate das tradições religiosas antigas a partir do culto dos antepassados, conhecido como sampy. Essa resistência foi desarticulada por volta de 1897, pela ação da repressão francesa e pela pouca organização dos rebelados. Outros movimentos populares de resistência aconteceram em Madagáscar ao longo do século XX, porém o país somente obteve sua independência dos franceses em 1960.

|1| ESOAVELOMANDROSO, Manassé. Madagáscar de 1880 a 1939: iniciativas e reações africanas à conquista e à dominação coloniais. In.: BOAHEN, Alber Adu (ed.). História Geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010, pp. 254.
|2| Idem, p 255.

*Créditos da imagem: Aureliefrance e Shutterstock

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Por: Daniel Neves Silva

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