Ferreira Gullar

Ferreira Gullar,Thiago de Mello e Afonso Romano de Sant’Anna deixaram suas contribuições artísticas como legado para todos aqueles que apreciam e que refletem acerca das singulares manifestações presentes na Literatura.

Demonstrando-se avesso aos moldes promulgados pelo Concretismo, Gullar optou por trabalhar a palavra, ornamentando-a segundo sua peculiar ideologia: os percalços advindos das camadas sociais juntamente com todas as mazelas nelas atestadas, tais como a desigualdade social, a violência, o poderio centrado nas mãos da elite, enfim.

O contexto histórico-social justifica os posicionamentos firmados pela chamada poesia social, da qual Ferreira Gullar fez parte. Aqui, em solo brasileiro, o país vivia o tão fatídico Golpe de 64, no qual militares assumiram o poder pelos 21 anos subsequentes, sobretudo implantando a era ditatorial. Lá “fora”, o mudo vivia a Guerra do Vietnã, época (1964) em que os Estados Unidos resolveram tomar frente no conflito, enviando soldados e armamentos bélicos. Tal conflito teve como consequência a morte de mais de um milhão de pessoas, civis e militares, não se esquecendo da significativa quantidade de mutilados e feridos.

Eis a razão de se afirmar que o artista se manifesta à margem do que vive, do que presencia, sendo que muitos dos posicionamentos atuam como fonte de verdadeira denúncia. Foi assim que fez Ferreira Gullar em muitas de suas criações, revelando-se como alguém indignado frente à realidade mundana. Fatos esses que podemos atestar em uma delas, intitulada “Não há vagas”: 

O preço do feijão
não cabe no poema.

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O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em seus arquivos.

Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema                                                                                                 
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede nem cheira.


Por meio do discurso que cria, o poeta deixa evidente que a realidade dos fatos sociais é tão cruel que não cabe no poema, pois ele parte do real para o subjetivo, por vezes camuflando a dureza exterior, como uma espécie de refúgio.

Conhecemos, pois, um pouco mais sobre Ferreira Gullar, poeta nascido em 1930, em São Luís, Maranhão. Participando primeiramente da poesia concreta, mostrou-se avesso aos firmamentos por ela evidenciados. Já em 1950, mudando-se para o Rio de Janeiro, resolveu se engajar no chamado Neoconcretismo, em 1958. No início da década de 1960, voltou-se ativamente para a poesia participante.

Com o decreto do AI-5, juntamente com Caetano Veloso e Gilberto Gil, foi preso. Em 1971, por decisão própria, resolveu se exilar, indo viver em Paris, Chile e Argentina.

Já de volta ao Brasil, em 1977, retomou as atividades de crítico, jornalista, dramaturgo e poeta, morando no Rio de Janeiro.

Ferreira Gullar foi um dos precursores da chamada “poesia social”

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Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte

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