Álvaro de Campos

Álvaro de Campos é um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa. Sua obra é dividida em três diferentes fases: decadentista, futurista e intimista.

Álvaro de Campos é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. A ele são atribuídos os poemas Tabacaria e Poema em Linha Reta
Álvaro de Campos é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. A ele são atribuídos os poemas Tabacaria e Poema em Linha Reta

Álvaro de Campos é um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa e foi considerado o verdadeiro alter ego desse que foi um dos maiores poetas da língua portuguesa. Sua primeira composição data de 1914 e, até pouco tempo antes da morte de seu criador, assinava alguns poemas, coisa que o próprio Pessoa já havia deixado de fazer. Assim como as demais personalidades criadas por Pessoa, entre elas Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares, Álvaro de Campos possui sua própria biografia, fruto da genialidade do enigmático poeta.

(...) Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê.”

(Fernando Pessoa – Carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de janeiro de 1935)

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Portugal, no dia 15 de outubro de 1890. Aprendeu latim com um tio que era padre e posteriormente estudou engenharia mecânica e naval na Escócia. Entre todos os heterônimos, é o único que apresenta três fases poéticas distintas, tendo iniciado como poeta decadentista (influenciado pelo Simbolismo), posteriormente aderiu ao Futurismo (com um estilo próximo ao do escritor norte-americano Walt Whitman) e, após uma série de desilusões e crises existenciais, aderiu ao Intimismo, fase caracterizada pelo cansaço e pelo pessimismo. Conheça três poemas que representam cada uma das fases da poética de Campos:

Fase decadentista: A principal característica dessa fase na poesia de Álvaro de Campos é a visão pessimista do mundo, com versos que evidenciam, por meio de símbolos e imagens — recurso comum no Romantismo e no Simbolismo —, certo tédio e grande necessidade de fuga da monotonia:

(...) Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.
Em paradoxo e incompetência astral 
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida 
E os próprios gozos gânglios do meu mal (...)”.

(Excerto do poema “Opiário”)

Fase futurista: Nessa fase é possível perceber o fascínio pelas máquinas e pelo progresso, temática abordada também na obra de outros escritores, entre eles Walt Whitman e Marinetti, esse último responsável pelo Manifesto Futurista:

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À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica  
Tenho febre e escrevo.  
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,  
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!  
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!  
Em fúria fora e dentro de mim,  
Por todos os meus nervos dissecados fora,  
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!  
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,  
De vos ouvir demasiadamente de perto,  
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso  
De expressão de todas as minhas sensações,  
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!(...)”

(Excerto do poema “Ode Triunfal”)

Fase intimista: Nessa última fase encontramos um poeta em profundo desalento, angustiado e incompreendido. Os principais temas são a solidão, a nostalgia da infância, a frustração e a incapacidade de amar. Pertence à fase intimista um dos mais belos e representativos poemas de Álvaro de Campos, a obra-prima Tabacaria:

“Não sou nada / Nunca serei nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”
Não sou nada / Nunca serei nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

Não sou nada.
Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.(...)”.

(Excerto do poema “Tabacaria”)

Sob o heterônimo de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa assinou alguns de seus melhores e mais conhecidos poemas, entre eles Tabacaria, Poema em Linha Reta, Magnificat, Lisbon Revisited, Ode Triunfal e Cansaço. A multiplicidade do Poeta fez dele um dos mais importantes da literatura universal e, possivelmente, ao lado de Camões, o mais importante poeta da literatura portuguesa.

Por: Luana Castro Alves Perez

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