Morte e mortos na Mesopotâmia

O tema “Morte e mortos na Mesopotâmia” está relacionado com as narrativas mitológicas desenvolvidas pelos povos dessa região e registradas, sobretudo, na Epopeia de Gilgamesh.

Nas civilizações que se desenvolveram no Oriente Médio, em especial aquelas dos vales férteis da Mesopotâmia, a compreensão em torno do fenômeno da morte e do cuidado com os mortos estava, como em muitas outras civilizações antigas, atrelada a um complexo sistema religioso politeísta. A principal fonte que se tem sobre as concepções de mundo celeste, mundo inferior, deuses e heróis do universo mesopotâmico é a Epopeia de Gilgamesh, uma compilação de poemas sobre o herói que deu o título (Gilgamesh) à obra e que expõe também todo o conjunto de mitos da Mesopotâmia desde os seus primórdios.

Os poemas que compõem a epopeia de Gilgamesh datam do segundo milênio a.C., mas a compilação que serve de base para as interpretações historiográficas e literárias atuais data do século VII a.C., especificamente, da época do rei assírio Assurbanípal, que erigiu uma ampla biblioteca com tabuletas de argila, gravadas com escrita cuneiforme, na cidade de Nínive.

Nos poemas da referida epopeia, as concepções mesopotâmicas sobre o mundo sobrenatural assemelham-se, em dada mediada, às narrativas mitológicas de outras civilizações, inclusive ocidentais, como a greco-romana. Para os povos da Mesopotâmia, apenas os deuses habitam o céu, e os humanos eram relegados ao mundo dos mortos, ao “submundo”, que era habitado também por outros seres, como os Anunnaki, ou Magníficos, que chegaram a viver no mundo celestial, mas se tornaram decaídos por conta de alguma falta, tais como os Titãs, que foram enviados ao mundo de Hades por Zeus, ou tais como Lúcifer, que foi mandado ao Inferno por conta de seu pecado.

Após a morte, a alma dos humanos chegava ao mundo dos mortos e deparava-se com Nedu, ou, na forma sumeriana, Neti, o porteiro-mor que montava guarda na entrada dos “infernos”. A figura de Neti assemelha-se, por sua vez, à do monstro Cérberos, que vigiava a entrada do Hades, na mitologia grega. Assim como no Hades havia a figura de Pesérfone, a deusa que foi raptada por Hades e levada para ser sua companheira no submundo, na mitologia mesopotâmica havia a figura de Ereshkigal, a Rainha dos Mortos e esposa de Nergal, o deus do submundo.

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De forma geral, os povos da Mesopotâmia concebiam a passagem para o mundo inferior como algo muito pesaroso, haja vista que não havia nenhuma perspectiva de condução da alma à redenção e à possibilidade de contemplar Deus no paraíso, como há nas religiões mosaicas do Oriente Médio (Islamismo, Cristianismo e Judaísmo).

Nesse sentido, como atesta o filósofo Oswaldo Giacóia Jr., em trabalho dedicado a pensar as visões da morte ao longo do tempo, para os povos mesopotâmicos: “[...] o essencial consiste na administração adequada da existência na terra, no registro de sua identidade, sendo a morte uma espécie de queda, rebaixamento, diminuição da vida - ou melhor, uma condição degradada de existência, o apagamento e a sombra do que outrora era vivo.[1]

NOTAS

[1] GIACÓIA JR., Oswaldo. A visão da morte ao longo do tempo. Revista Medicina. n. 38, v. 1, Ribeirão Preto. p. 15.

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Por: Cláudio Fernandes

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