A viagem da Família Real

Quando falamos da partida da Família Real Portuguesa, muitos interessados no assunto costumam fazer menção sobre um jocoso comentário da época. Ao partirem rumo às embarcações que transportariam os monarcas, a debilitada Dona Maria, A Louca, mãe do príncipe regente D. João VI, teria dito para que não corressem, pois os franceses desconfiariam da fuga. Para muitos, esse relato condiz com ideia de que os portugueses saíram às pressas de seu país.

Contudo, isso não remete ao processo que viabilizou a saída da realeza e de seus súditos para o Brasil. A ações que antecederam a saída dos portugueses do Velho Mundo foram engendradas desde agosto de 1807. Nesse mês, Napoleão já havia proferido o ultimato onde exigia a ruptura definitiva das relações comerciais entre a Inglaterra e Portugal. Até que tudo estivesse pronto, D. João VI se mostrou hábil em protelar a deflagração da invasão francesa.

Para ganhar tempo, ele armou um jogo de aparências em que hora buscava se conciliar com os franceses, hora dizia à Inglaterra que não os apoiariam nas guerras napoleônicas. Enquanto isso, D. João VI abarrotou cerca de nove naus-de-linha, um tipo de embarcação que pesava duas mil toneladas e ostentava cerca de oitenta canhões. Um navio de nome “Príncipe Real” foi incumbido da missão de carrear a Família Real e outros 1050 membros da corte.

Ao todo, as embarcações que participaram da transferência trouxeram mais de 11 mil pessoas para o Brasil, entre súditos, nobres e a família de D. João. Ao contrário do que se imagina, os tripulantes não se restringiram a carregar somente aquilo que julgavam ser indispensável. Uma fragata foi exclusivamente utilizada para realizar o transporte de dezenove carruagens. Além disso, transportaram uma montanha de livros que viriam a compor as estantes da futura Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Para que tudo saíssem conforme o programado, os portugueses ainda contaram com o próprio auxílio da Inglaterra, que decidiu apoiar a transferência. Contando com embarcações militares potentes, os ingleses cederam alguns de seus navios para escoltar a Corte Portuguesa até a Ilha da Madeira. Além disso, caso Napoleão decidisse perseguir D. João em alto mar, cinco naus inglesas foram utilizadas para bloquear o rio Tejo, que desembocava no Oceano Atlântico.

O apoio da Inglaterra acabou não sendo nenhum pouco desinteressado ou espontâneo. Pela ajuda militar prestada, que ainda incluía o confronto com as tropas francesas em solo, o governo britânico barganhou a abertura dos portos brasileiros. Através dessa medida, o setor industrial inglês conseguiu abocanhar um amplo mercado consumidor. De fato, essas são apenas uma das diversas transformações que tomaram conta da colônia brasileira após a chegada da Família Real.
Dom João VI preparou a transferência da Família Real com quatro meses de antecedência.

Dom João VI preparou a transferência da Família Real com quatro meses de antecedência.

Por: Rainer Sousa

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