O ENEM movimenta cerca de 3,9 milhões de inscritos por edição e, até hoje, depende de um exército de corretores humanos treinados pela Fundação Getulio Vargas para avaliar cada redação. Esse modelo, construído ao longo de duas décadas, está prestes a mudar.
Em junho de 2025, o ministro da Educação Camilo Santana afirmou que a inteligência artificial vai corrigir provas do exame "daqui a pouco", sinalizando uma transição que já saiu do papel, pois o uso de ferramentas como AI detector também ganha relevância para avaliar conteúdos produzidos por modelos automatizados.
O movimento não é improviso. O app oficial MEC Enem, lançado em outubro de 2025, já entrega correção automatizada de redação com nota estimada em até um minuto, usando transcrição e avaliação por algoritmos. Em paralelo, o governo de São Paulo rodou o piloto TarefaSP, em que a IA corrige tarefas escolares e devolve feedback aos professores. Os dois projetos funcionam como laboratório para o que deve chegar à correção oficial do ENEM nas próximas edições.
Tópicos deste artigo
- 1 - Como a correção funciona hoje
- 2 - O que a IA já consegue avaliar
- 3 - O outro lado: detectar quem usou IA pra escrever
- 4 - O que muda pra estudantes e professores
Como a correção funciona hoje
Antes de entender o que muda, vale revisar o processo atual. Cada redação do ENEM passa por dois corretores humanos independentes, que atribuem notas de 0 a 200 em cinco competências definidas pelo INEP:
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C1: domínio da norma culta da língua portuguesa.
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C2: compreensão da proposta e desenvolvimento dentro do tema.
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C3: seleção e organização de informações, fatos e argumentos.
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C4: conhecimento dos mecanismos linguísticos de coesão e coerência.
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C5: elaboração de proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos.
Quando há divergência relevante entre os dois corretores, uma terceira correção é acionada. Esse desenho, detalhado pela imprensa especializada, garante pluralidade de leitura, mas custa caro e leva semanas. É exatamente onde a IA promete entrar como apoio, e em algum momento como protagonista.
O que a IA já consegue avaliar
Algoritmos de processamento de linguagem natural treinados em milhares de redações nota mil conseguem identificar com boa precisão estruturas argumentativas, conectivos, desvios gramaticais e aderência ao tema. Modelos mais recentes vão além da contagem de erros e analisam progressão temática, coesão referencial e a presença de uma proposta de intervenção concreta. Uma análise técnica mostra que esses sistemas operam por camadas: primeiro classificam o texto dentro do tema, depois pontuam cada competência separadamente, comparando padrões com redações já corrigidas por humanos.
As vantagens são óbvias: velocidade, custo menor e consistência entre avaliações. A IA não cansa na milésima redação como um corretor humano cansa. Os limites também existem. Avaliar uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos exige juízo de valor que algoritmos ainda fazem de forma rasa. Por isso, o cenário mais provável nos próximos anos é híbrido: a máquina dá uma nota inicial, o humano confirma ou ajusta.
O outro lado: detectar quem usou IA pra escrever
Se os examinadores estão adotando IA pra corrigir, os candidatos descobriram há tempos que podem usá-la pra escrever. Aí mora o problema que mais preocupa coordenadores pedagógicos hoje. Em treinos, simulados e provas de instituições privadas, o uso não declarado de ChatGPT, Gemini ou Claude para produzir redações vem sendo tratado como conduta análoga a plágio por escolas e universidades brasileiras.
No ENEM, a redação é manuscrita e feita sob fiscalização, o que reduz o risco no dia da prova. O problema migra pra etapa de preparação: alunos que treinam o ano inteiro com textos gerados por IA chegam à prova sem ter desenvolvido as competências reais. Professores precisam saber distinguir um rascunho escrito pelo aluno de um rascunho copiado de um modelo de linguagem.
É nesse ponto que entra o tipo de ferramenta usada por examinadores e coordenadores pra checar a autoria de textos. O ZeroGPT é um detector de IA muito difundido no mercado educacional brasileiro, com capacidade de identificar trechos produzidos por ChatGPT, GPT-5, Gemini, Claude e DeepSeek, além de oferecer API para integração com plataformas de ensino. Para um coordenador que recebe centenas de redações de treino por semana, ter esse filtro automático é a única forma realista de manter a integridade do material.
O que muda pra estudantes e professores
O recado prático tem duas pontas. Pra quem estuda, a melhor preparação continua sendo escrever de próprio punho, errar, receber correção e refazer. Treinos com IA podem ajudar a entender a estrutura argumentativa, mas redações inteiras geradas por máquina sabotam o aprendizado e podem ser flagradas na rotina escolar.
Pra quem ensina e corrige, três frentes vão definir o trabalho nos próximos anos. Primeiro, dominar as ferramentas oficiais de correção automatizada que o MEC vai disponibilizar, entendendo seus critérios e limites. Segundo, integrar detectores de IA na rotina de avaliação de textos produzidos fora da prova, pra calibrar a confiança no progresso do aluno. Terceiro, ajustar o desenho pedagógico: se o aluno consegue produzir um texto razoável colando do ChatGPT, talvez a atividade precise pedir argumentação oral, defesa do texto em sala ou produção supervisionada.
A chegada da IA ao ENEM não substitui o trabalho humano de educar. Muda a logística da correção, encurta prazos, libera examinadores pra tarefas mais nobres. E obriga toda a cadeia escolar a olhar com mais atenção pra como o texto chegou até a folha, não só pra nota que ele recebe no final.